Decidi dedicar alguns posts para alguns textos que escrevo. Sejam eles poemas, poesias, crônicas, pensamentos vagos…
Não esperem muita coisa. Até porque não escrevo para os outros gostarem, e sim para satisfazer meu ego, meus anseios, o desejo de despejar no papel ou na tela alguns pensamentos sombrios que perpassam minha cabeça, vez ou outra. Seria muito egoísmo dizer que só escrevo para mim, tudo bem. Mas ao mesmo tempo, seria muita perda de tempo escrever apenas buscando a aprovação e os elogios alheios. Alguns dizem que sou muito macabra e dramática no que escrevo, outros gostam…sintam-se a vontade para acharem o que quiserem.
Abaixo, um poema que escrevi em 2005.
Tricôt
Que poderia eu dar-te senão o amor que me consome
como o fogo queimando na lareira.
Cujas cinzas voam com o ar gélido e cortante que entra pela janela agora escancarada.
E logo o carpete vai se pintando de cinza
misturando-se com o teu corpo nu manchado de sangue.
E nas minhas mãos, a morte, que agora tricotam a manta que envolveria teu pescoço…
E a lã vai se acabando como o pouco de sanidade que ainda resta em mim.
E as manchas derramadas das taças estendidas agora no chão,
confundem-se com o vermelho vivo que brota do teu pescoço.
Como a flor que brota no jardim lá fora, agora castigada pelo inverno.
E nosso amor também foi castigado.
Tuas mãos nervosas e audaciosas tocaram outros corpos.
E teus olhos, antes vivos e brilhantes, como o céu claro de um dia de sol,
admiraram outras, que não eu.
E teus lábios recostaram-se em outros lábios,
e tudo isso enquanto eu tricotava a manta que envolveria teu pescoço.
Porém agora tu jazes estendido, imóvel, no tapete tingido de vermelho da sala,
que antes fora palco do nosso amor selvagem
acalentando nossos corpos quentes e inquietos.
E tua boca doce e úmida beijara-me,
e tuas mãos ternas e intensas percorreram o desconhecido do meu corpo.
E nossas mãos espalmadas uniram-se em êxtase
e no teu olhar….luz.
Mas as agulhas do tricôt espetadas no novelo de lã,
agora se encontram depositadas ferozmente em teu pescoço.
E o teu corpo repousa pálido e sem vida.
E as tuas pupilas opacas, perdidas em escuridão como a noite negra que se anuncia,
denunciam teu fim.
E ao beijar-te, sinto apenas a frieza dos teus lábios,
sinto um beijo com gosto de morte.
E aqui permaneço, com tua ausência a perseguir-me.
E o ar fétido que me fere.
E a manta, que envolveria teu pescoço,
inacabada!