Bastidores de um filme caseiro
Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça? Um grupo de amigos, que se autodenomina “us certinhus”, provou que esse conceito realmente funciona na prática. Durante três fins de semana entre julho e setembro de 2005, vinte e dois amigos conseguiram gravar um filme de terror, com muitas pitadas de humor. A idéia surgiu assistindo a outros filmes caseiros, Limone Maldito 1 e Limone Maldito 2 - A seqüela, feito por alguns do grupo, há anos atrás.
Caroline Dienstmann, estudante de Publicidade da Unisinos sempre sonhara em dirigir um filme, e nesse momento que ela idealizou fazer este projeto com o grupo de amigos a qual pertence. “Me deu vontade de fazer algo parecido, mas só de brincadeira” comenta ela, rindo. E mesmo que esta “brincadeira” tenha dado bastante trabalho, ela diz que “o resultado está sendo recompensador”.
Com sua idéia para o tema do filme aprovada pelos amigos que iriam participar deste projeto, era hora de iniciar o roteiro e toda organização, liderada por uma equipe de produção formada por seis pessoas escolhidas. O título do filme seria “Betrug – A Maldição do Corno“, bastante sugestivo, e que nos remete a um filme de suspense, um tanto quanto engraçado. A palavra Betrug é de origem alemã, e significa traição, e foi escolhida pelo grupo com a ajuda de alguns integrantes que falam alemão.
Enquanto Caroline ficava responsável por escrever o roteiro, o resto da equipe se dividia em outras funções, como organizar o figurino, conforme os personagens iam sendo criados e distribuídos. Foi decidido que as pessoas que fariam a edição, seriam as mesmas que cuidariam de todo equipamento e da parte técnica do filme. André Henrique Trein, que já trabalhava com produção de vídeo, e seu primo Lucas Drecksler, foram os escolhidos, por já possuírem experiência com os filmes caseiros Limone Maldito 1 e 2, que eles definem como uma produção em família, sem muitas pretensões. As diferenças deste novo filme são muitas, nos filmes anteriores não havia roteiro nem preocupação com iluminação, tampouco o recurso da edição. Para André “editar está custando bastante tempo, mas dará uma qualidade incomparavelmente superior nas imagens, na sonorização, nos efeitos e no acabamento final”.
Tudo pronto, no dia 30 de julho era hora de alguns embarcarem no ônibus rumo à Santa Maria do Herval, local escolhido para a gravação do filme. Enquanto outros levavam em dois carros a maioria das malas e equipamentos, que contava com duas câmeras digitais e alguns apetrechos de iluminação. Todos estavam ansiosos para conhecer o local das gravações, que seria no sítio de um dos integrantes do grupo. Ao chegarem logo descobriram que o lugar era perfeito para o filme, que deveria ter como cenário uma casa isolada no meio do nada, rodeada apenas de uma floresta. Embora o sítio não fosse realmente assim, eles fizeram parecer que era. O chalé, onde caberiam normalmente seis pessoas, estava com sua lotação esgotada. Eram 22 pessoas, todas com malas, fora o equipamento que seria utilizado, objetos de cena, figurinos, comida, afinal, em meio às gravações, tanto equipe como atores precisavam se alimentar.
Ninguém perdeu tempo, enquanto alguns acomodavam as bagagens nos quartos, que ainda não seriam usados para nenhuma gravação, outros já preparavam as câmeras, e enquanto isso, na cozinha, o almoço já estava sendo preparado. Organização foi algo que não faltou para este grupo, até mesmo para a alimentação foi feita uma lista do que seria consumido no fim de semana, sendo uma pessoa responsável por comprar tudo e depois dividir o valor entre todos.
A primeira cena a ser gravada seria a mais difícil e também a mais demorada, isso porque estavam praticamente todos em cena. Além disso, o grupo estava aprendendo como tudo seria feito, tanto a equipe estava se adaptando aos imprevistos como carros passando, e os atores, que ainda estavam inexperientes e até mesmo nervosos. Aos poucos a cena foi tomando forma, e sendo finalizada, causando empolgação no grupo todo, e dando novo ânimo às próximas cenas.
Pausa para o almoço, era hora de descansar e discutir os erros e acertos da primeira cena. Escolhido quem ficaria responsável pela limpeza da cozinha, as gravações deram prosseguimento, era hora de gravar a cena 2, também externa, aproveitando o bom tempo. No início as gravações iam sendo feitas em ordem cronológica, sempre acompanhando no roteiro, e fazendo uma marcação das cenas já gravadas, e anotando os figurinos de todos, para evitar erros de continuidade. O ritmo de gravações foi aumentando, Caroline Dienstmann que estava atuando e também dirigindo o filme, ia dando as coordenadas das cenas para o câmera André Trein, principal cinegrafista do filme.
Mas nem sempre tudo dava certo nas cenas, afinal, entre amigos, risadas não faltavam, e muitas vezes essas vinham nas horas erradas. Para a atriz e também diretora do filme, “a maior dificuldade foi não rir durante as gravações, porque o filme é uma mistura de comédia e terror e os atores são todos muito amigos”. Em meio a gritos de “gravando” e “corta” as gravações seguiram noite adentro, parando apenas para a hora da janta, que mesmo rápida, era necessária. Enquanto uns comiam os sanduíches preparados, outros ficavam com as planilhas verificando quantas cenas haviam sido gravadas e quantas ainda precisavam ser finalizadas naquela mesma noite.”A nossa preocupação era com o tempo, pois precisávamos liberar alguns atores que não poderiam vir no segundo final de semana”, alega Juliano Rangel, estudante de Jornalismo da Unisinos que atuou e ajudou na organização do filme.
Dando continuidade às gravações, duas pessoas foram mortas naquela noite, com direito a muito sangue, mas calma, isso só na ficção. Até porque todo filme trash caseiro que se preze, tem que ter muito sangue, que nesse caso foi preparado por Lucas Drecksler, responsável pela maquiagem dos mortos. Para ele, “filmes de terror/suspense precisam de muito sangue e maquiagens legais para causar espanto, em um filme amador, a maquiagem torna tudo mais interessante”. E foi com esse pensamento que Lucas buscou fórmulas na Internet para fabricar um sangue, que segundo ele deveria ser realista, barato, atóxico e que não manchasse as roupas. O resultado foi alguns litros de sangue despejados em muitos corpos, com cortes feitos com camisinhas e cola, dando um aspecto bastante real às feridas. Mas isso só poderá ser conferido no filme, porque a fórmula ele não quis revelar.
As gravações foram até a madrugada, mesmo com muito cansaço o grupo conseguiu gravar todas as cenas necessárias para aquele dia. No domingo, em meio à bagunça de colchões por todo chalé, iniciou-se a organização para mais um dia de gravação. Nesse dia seria gravado o enterro de um dos personagens, com cova feita e tudo. E logo a história ia tomando forma, e se adaptando, até porque, como definiu Clairinês Oliveira, estudante de Jornalismo da Unisinos, “o roteiro ia mudando em virtude de algumas dificuldades, ou incoerências. Claro que o trabalho é da Carol, mas de certa forma, todo mundo colaborou no roteiro final”. O saldo do fim de semana tinha sido positivo, mas o grupo tinha ainda muitas cenas a serem gravadas pela frente.
Já no próximo fim de semana as gravações teriam prosseguimento, porém desta vez, optaram por ir à sexta-feira à noite, de topic. Como eram muitas cenas externas noturnas, o tempo teria que ser muito bem aproveitado. Luzes e câmeras preparadas, todos personagens já prontos com seus respectivos figurinos, era hora de encarar o frio e gravar. Para Mariana Scherrer, estudante de Jornalismo na Unisinos, o frio foi uma das maiores dificuldades enfrentadas. “Devido às roupas curtas da minha personagem, passei muito frio, mas valeu a pena, pois fazer este filme foi muito válido para minha carreira de atriz”, conta Mariana, que já trabalha com teatro há cerca de três anos. O problema foi que além do frio, no outro dia estava chovendo, o que dificultou o andamento das gravações, e exigiu do grupo um maior esforço.
As cenas já não eram mais gravadas em ordem cronológica, e o ritmo tornava-se cada vez mais intenso. Não eram poucas às vezes em que se ouvia gritos de “silêncio” para que as coisas funcionassem, quando o grupo se desconcentrava. Esse segundo fim de semana foi de muito trabalho para todos, onde a prioridade era finalizar o filme, sem que o grupo se importasse com a hora que iria dormir, ou a hora que precisaria acordar. Mas nem todo esforço e dedicação foram suficientes para terminar o filme na data prevista. No Domingo, em uma rápida reunião, foi feita uma avaliação do que havia sido feito, e do que faltava terminar. Com nove cenas faltando, não sobrou outra solução senão marcar uma nova data para gravar o que faltava com parte do grupo. Mas depois do terceiro fim de semana, o trabalho deste grupo de amigos dava-se por encerrado, pelo menos por enquanto.
O trabalho agora seria outro, editar. Para isso foi montada uma estação na casa de um dos integrantes do
grupo, com toda aparelhagem necessária. Desde então, vem sendo realizado o processo de edição, que no momento encontra-se em fase de juntar todas as cenas editadas. Terminada essa parte, André Trein, responsável pela edição, fará o acabamento final, e o DVD.
Agora só resta aguardar por esse projeto, cujo trabalho nem se compara ao tamanho da amizade deste grupo, que provou que toda idéia é possível, quando há força de vontade e dedicação. E isso, “us certinhus” têm de sobra.



Barbie
Já tinha lido esta matéria quando ela foi publicada no Babélia impresso, mas como foi gostoso reler este texto. Por alguns minutos minha mente embarcou em um túnel do tempo e voltou às gravações do filme. Me bateu uma saudade e fiquei sorrindo do lado de cá, pois tu conseguiu retratar a nossa rotina de forma sucinta, mas rica em detalhes.
Parabéns por este maravilhoso texto, que comprova a excelente profissional que tu está se tornando. Sou teu fã.
Beijos e abraços.
E continue firme no seu blog.